quinta-feira, 1 de março de 2012

Vacina contra o vírus do “amor”





Anda por aí a ideia, já arraigada em nós desde tempos milenares, de que a felicidade desta vida reside no amor. Refiro-me ao amor erótico e sexual e não ao amor filial e fraterno. A partir daí foi criado todo um cenário que, por mais incrível que pareça, chega a atingir às raias do paradoxal.
Quando se é jovem, ou mesmo adulto, e não se tem alguém; ou se teve; ou se está em vias de ter, nasce a impressão de se estar a viver numa grande solidão. Tal situação é sintetizada em frases como estas: "sem ti não posso viver", "só tu podes acabar com a minha solidão" "a minha felicidade está nos teus braços", "prefiro morrer a viver sem ti" e outras, já de mais conhecidas por todos nós. Perrault, um exímio escritor francês da literatura infantil, reflecte, a nosso ver, esta situação em Cinderela.








A história é conhecida por todos nós: Cinderela, uma moça desprezada pela mãe e pelas irmãs, acaba, graças à extrema pequenez de seu pé, por fazer com que um príncipe encantador se enamore por ela. O famoso sapatinho da Cinderela assume-se hoje, no imaginário feminino, como a esperança eterna em se encontrar o parceiro ideal, mais comummente designado por alma gémea. Para elas, isso agrava-se porque, como se vê, os homens de facto, começaram a escassear no "mercado" Assim, uma jovem sem namorado, espera paciente pelo seu Príncipe Encantado; uma mulher casada, desiludida com o marido sonha, entre um abraço repelido e um beijo ácido, em desfazer a relação para encontrar, talvez um dia, o seu Príncipe Encantado. Uma jovem abandonada pelo namorado, carpe a sua dor com a esperança de que o seu Príncipe Encantado, caso apareça, lhe enxugue as lágrimas, fazendo-a esquecer do causador da sua dor.

Com o andar do tempo, vamo-nos apercebendo de que os Príncipes Encantados e as Cinderelas, não existem, a não ser nas nossas cabecinhas de sonhadores. É que, a cada dia que passa, deparamo-nos mais com desencantos que com encantos. Pior ainda num momento em que a sexualidade deixou, para muita gente, de ser um acto de comunicação; de partilha de emoções, de sentimentos, de realização humana e espiritual entre dois seres, passando a resumir-se a simples actos de erecção, ejaculação e orgasmo, o que tem descambado para as piores frustrações e desilusões. Bem, isso para não falarmos dos riscos a que nos expomos com o "mel que mata":o grande flagelo dos nossos tempos (VIH-Sida)
Na verdade, a dificuldade do homem em realizar-se no amor (dados os preconceitos sexuais), é o que o faz viver constantemente insatisfeito consigo próprio, atando e reatando relações aqui e ali, sem se aperceber que um eterno apaixonado é um eterno sofredor. Bem, vendo as coisas por um outro prisma, podemos inferir também que somos, em parte, prisioneiros dos nossos próprios instintos. Por vezes, a falta de uma forte disciplina interior faz com que sejamos servos dos mesmos. No instinto está também implícita a necessidade biológica da sobrevivência da espécie o que, como se pode ver, complica mais a questão.

Entretanto, hoje é por de mais sabido que os filhos nem sempre são fruto do amor. São, isso sim, mais fruto de uma "imposição" social e cultural que propriamente do grau da estima que existe entre os parceiros. Isso para não falar daquela dimensão psicológica, apontada por Kauffman, para quem os filhos são a "finta da vida". A vida fintou-nos, e todos caímos com uma pinta, porque a existência é incompatível com o vazio. Assim, quanto mais lutarmos para o bem-estar dos filhos, mais atenuamos as nossas crises existenciais e, sobretudo, o pavor da ideia de virmos a morrer um dia. Quem lá sabe se a crença (embora ilusória) da nossa "imortalidade" reside também na procriação?
Vistas assim as coisas nada mais nos resta senão a insatisfação constante, o ciúme, as paixões sucessivas, aliadas à espera incessante e improvável de uma Cinderela ou de um Príncipe Encantado. Ou seja, vivemos todos naquilo a que Kundera chamou de "insustentável leveza do ser".

E quando me refiro a isso, vem-me à cabeça aquilo a que os filósofos chamam de felicidade negativa; uma espécie de Nirvana que, para o nosso caso, se apresentaria como apagamento total do apelo irresistível à luxúria, à limitação da sobrevalorização do coito heterossexual e, sobretudo, o olhar para reprodução como finalidade única do amor. E como seriam as coisas assim? Talvez deixaríamos de sonhar, em excesso, com os príncipes encantados e com as Cinderelas; talvez canalizaríamos esta energia para a criação de obras de mérito ao invés de vivermos obcecados com o amor erótico. Daí a necessidade de uma vacina contra esses vírus do "amor". E, quem lá sabe se, assim, sentimentos como o ciúme e a volúpia deixariam pura e simplesmente de existir. Ficaria apenas por responder a questão do que fazer da poderosa indústria sexual.
E se assim fosse talvez teríamos, no mundo, o amor in real sense.

Escritor e Professor Universitário
Aníbal Simões