segunda-feira, 31 de maio de 2010

Às Noites Mágicas de Luanda( II parte)


Não fazia um mês desde que estava em Luanda. Tudo para mim era quase novidade. Há 20 dias, eu estava na casa da minha mãe “pequena”, como mandam as nossas tradições africanas (irmã mais nova da nossa mãe é também nossa mãe). Fui visitá-la para passar alguns dias com ela.

Depois de ter cumprido a minha agenda do dia, dirigi-me ao quarto para descansar, ou seja, dormir mesmo porque estava muito cansada. Não foi preciso fazer muito esforço que o sono apareceu logo de imediato. Passada uma hora, porque eu deitei-me às 7 da tarde, ouvi o telefone a vibrar e, minutos depois, tocou! Quem ligava era a minha amiga Anne, que está fazer o doutoramento em Psicologia na Universidade do Minho, Portugal. Como sempre, ela falava com bastante entusiasmo, mas sentiu que eu acabava de sair do sono. De seguida, fez a seguinte pergunta: Então, Katy, hoje é sexta-feira e já estás a dormir? Mas tu és jovem, por que não sais com os teus amigos? Aproveita a vida! Tão perspicaz, apercebeu-se logo que eu estava morta de sono e despediu-se de mim. Enviei-lhe um abraço de Luz, como sempre, ainda com os olhos semicerrados.


Momentos depois, o móvel voltou a tocar, mas, desta vez, não era a Anne, mas sim, o paulo Fernandes,  a pessoa de quem eu tanto gosto, branco de origem Portuguêsa. Faço questão de frisar isso, porque, para não ser mal interpretada e acusada de intolerante, não tenho nada contra a raça branca, amarela ou mista ……, até por sinal, mantenho uma ralação intercultural. Ele perguntou-me se eu não queria sair com ele para o Chill Out. Eu disse que não; que queria ficar em casa a descansar. Insistiu, mas infelizmente foi em vão. Deitei-me novamente para ver se sono voltava. Mexia-me de um lado para o outro e com os olhos bem fixos nas quatro paredes do quarto. Mas os minutos iam passando e o sono nada. De súbito, vieram-me, sorrateiramente, à memória as palavras doces de Anne. Mas como a magia pairava no ar e, como eu sou uma pessoa de muita sorte, o móvel voltou a tocar. Era, de novo, o meu amigo a dizer-me que ele já estava no Chill Out com uns amigos e se eu quisesse sair de casa mandaria o motorista. Assim sendo, diante desses acontecimentos, senti-me obrigada a dizer-lhe, que sim, aceito! Agora, o problema estava no que iria vestir, pois eu só tinha comigo roupas de trabalho e desportivas e alguns sapatos que estavam na mala que tinha trazido da Bélgica há 9 meses! Calcei-os, pus um fato cor vermelha, bem actual de estilo macacão. Em cima, era um tomara bem justinho na cintura e com umas fitas vermelhas que quando amarrasse, realçavam muito bem a minha cintura e os meus peitos, na parte superior, que pareciam dois maboques.

Usava cabelos cumpridos caídos até as costas e bem ondulados. A roupa e os sapatos combinavam com os meus lábios pintados em vermelhos que jogavam com o contraste da minha pele negra, que parecia um chocolate puro e os olhos semi-rasgados. Quem me conhece sabe que tenho um corpo magro, um rosto de adolescente, ar delicado, mas quando estou diante de uma conversa, as pessoas apercebem-se que apesar da aparência, sou uma pessoa madura. Simples e bonita como estava, sentia-me como se fosse a Gata Borralheira! O motorista estava lá fora à minha espera! Dirigimo-nos, como de hábito, para o coração da cidade de Luanda!
A cidade estava bastante agitada, mais que o habitual, talvez isso se devesse ao facto do aumento demográfico da cidade!


As sextas-feiras, como prenúncio de fim-de-semana, os luandenses dormem mais tarde! Verifiquei isso na fronteira entre o Bairro Azul e a Samba! À berma da estrada havia muitas Roulottes que vendiam tudo, desde cachorros quentes até bebidas. Luanda, a noite, brilha tanto que quase não se nota o lixo e a poeira que se sente durante o dia. Quanto ao lixo, tenho que admitir, que tem vindo a diminuir!

Já na entrada da Ilha, Chicala, apercebi-me que havia novas construções como hotéis e restaurantes e outros a serem reabilitados. Apesar de Luanda ser considerada uma das cidades mais cara do mundo, mas mesmo assim, quando o fim-de-semana bate à porta, ninguém consegue ficar indiferente, incluindo os estrangeiros que não resistem a magia desta cidade!
Depois de termos passado o Clube Náutico, que estava muito cheio, o Jango Veleiro chegámos ao salão de festa que fica na rotunda para quem deixa o Jango Veleiro: ouvia-se música, pessoas que saíam de carros, provocando engarrafamento; as moças atrapalhadas nos seus engates pareciam abstrair-se desse caos!

Depois de termos deixado a estrada do Hotel Panorama, que agora está em reabilitação, continuámos sempre em frente! Ultrapassávamos os bares de praia, à minha esquerda o Tamariz. Ao olhar para ele, com tanta gente a querer entrar para se divertir, vieram-me a memória os tempos em que eu fazia praia aos domingos e quando ficava à espera da boleia do meu pai, para nos deixar em casa! Os meus olhos ficaram marejados de lágrimas ao pensar nos tempos que já se foram; momentos esses guardo-os no peito com muitas saudades. Que bom seria se pudesse revivê-los !

Era a primeira vez que tinha estado na Ilha, desde que tinha chegado a Luanda! Deixando o Tamariz, à minha esquerda, vi que a floresta de Luanda estava mudada e vedada com uns murros bem altos. Depois de termos visto tumultos à entrada das discotecas, bares e restaurantes, chegámos, finalmente ao nosso destino: Chill Out! Ao chegarmos, custava-me imaginar que estávamos lá, pois, em tempos passados, este era um bar restaurante de praia, com nome de Surf. Fiquei admirada, porque o que tinha deixado já não existia, apenas o vestígio do próprio espaço ocupado por um belo Bar de nome Chill Out! Porém, depois de termos estacionado o carro, tal como havia combinado ao telefone, o meu namorado, saiu do Bar para me fazer entrar. Senti-me tal qual uma princesa!

À entrada do estabelecimento, pude ver que era bem moderno. Os seguranças estavam muito bem apresentados! Certamente, pensei eu: este sítio deve ser bem diferente do Palos e de outros bares, onde complicavam as pessoas por tudo e por nada! Soube que o local era gerido por um branco, não me foi muito difícil aperceber-me deste pormenor. Isso tem a ver com o facto de ser Psicóloga e uma das ferramentas de trabalho dos psicólogos é a observação!


Achei o bar muito bem estruturado e com uma qualidade de serviços invejável. Talvez isso se deva ao facto de ser era um local de preferência da classe estrangeira e da elite angolana! Quando procurava de onde via o som, deparei, sem querer, com o DJ. Também branco, bem, tudo isso é normal, mas veio, ao fim e ao cabo, provar as minhas suspeitas quanto à gerência do estabelecimento.

Este local é frequentado pela elite angolana. À minha esquerda, vi uma mulher, quase branca, no limiar da juventude e da fase adulta. Ao fixá-la bem, notei que era a filha da Saudosa “Mamã Coragem”, ou seja, Vitória de Anália Pereira. Está senhora, que estava acompanhada por um grupo de brancos, fora vice-ministra da Educação. Parecia mais que estávamos na Europa do que propriamente em África! Digo isso, porque se viam muitos brancos e mulatos e poucos negros. Havia 4 grupos no bar: Negras, digo isso porque quase não se viam homens negros, grupos dos brancos, esses é que eram a maioria, as mulatas e, por fim, os chineses!

Eu sentia-me à vontade mesmo com os olhares de muitos presentes concentrados em mim. O grupo das negras era o mais acanhado, talvez por ser o grupo minoritário ou, por outro lado, porque estava a tentar limpar a imagem da mulher angolana, rotulada, pelos estrangeiros, de interesseiras, aldrabonas e trambiqueiras.
As mulatas sentiam-se donas da situação e achavam-se as mais bonitas do que as negras e, para não variar, estavam sempre atrás dos engates, mas quando as negras o faziam eram logo rotuladas. Os brancos, depois de uma semana intensa de trabalho, apenas queriam divertir-se e, quem lá sabe, conseguir um bom engate no final da noite.
Os Chineses, estes ao contrário do que tivera visto na França e em Madrid, faziam um esforço para se adaptarem à cultura e à moda angolana. Bem, até as chinesas nas discotecas já iam ao engates e, pelos vistos, atacavam todos: brancos, negros e mulatos, como diz o velho ditado: tudo que cai na rede é peixe!

No princípio, as pessoas estavam bem comportadas, mas, porém, lá para o fim da noite, pareciam mais agitadas. Todos queriam engatar a todo o custo. Momentos depois, vi umas chinesas, no bar que fica a entrada da porta, com os seus negros angolanos, com um bom aspecto. Até eu, imaginem, que estava muito bem acompanhada, não escapei dos olhares tendenciosos de alguns brancos. O facto é que a agitação começa sempre no final da noite. E por fim, conseguem engatar. Os que não conseguem ou, os que dominam pouco as técnicas de engate, apenas o conseguem com ajuda de um plano B.

Tudo isso faz parte da magia que a Kianda consegue transmitir com bastante força a todos os habitantes da cidade de Luanda. Daí que muitos estrangeiros e mesmo angolanos, façam esse percurso todos os fins-de-semana: Caminham a pé, viajam de carro, rumo ao Postal do País, cuja magia e beleza, muda por completo as nossas vidas, afectando, por sua vez, a vida das pessoas que pertencem a nossa comunidade. Assim, querendo ou não, sentem-se obrigados a vivenciarem esta magia que paira nas noites de Luanda, que nos obriga, a cada dia que saímos a noite, a sonhar com um futuro melhor em todo as esferas das nossas vidas.

Deixo-vos com um abraço de luz

Katya Samuel